Víviam Nolasco



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Projeto Associação Científica de Psicanálise
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Vívian Nolasco Dal Molim - Psicóloga
CRP 07/09709

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Dal Molim



Passado é passado?


"Cara: vou repetir o ano de novo". "Vai rodar?" "É". "Por que, cara?" "Não sei". "Então estuda!" "Não dá mais, preciso de muito". - Este é um fragmento de uma destas conversas que escutamos. Recorro a este fato como a uma cena ilustrativa, com a intenção de aproximar-me do cotidiano e pensar um fenômeno psíquico chamado: compulsão de repetição. A compulsão a repetir, se caracteriza por um tipo de conduta que a pessoa realiza por uma imposição inconsciente, sem que haja uma intencionalidade no inconsciente. Simplesmente é algo que insiste. Daí a sensação de estranheza frente aos fatos, acompanhada por um sentimento de desamparo, impotência. Na repetição, é justamente o estranho que há em nós, o inconsciente, que se apresenta, se faz sentir na carne gerando dor, sofrimento e impedimentos diversos para o desfrute da vida. O que se repete são vivências que ficaram incompreendidas foram excessivas, traumáticas.

Tomemos a conversa dos dois jovens como um diálogo interno, como uma conversa entre duas partes dentro de uma mesma pessoa. Uma parte, inconsciente, que se apresenta insistente no fato de repetir o ano. E outra parte, do lado do eu, que vive passivamente essa insistência. Mas nesta conversa interna algo falha, e, a consciência, a força de vontade, se rende, desiste da luta, joga a toalha. A repetição acontece como um auto – boicote. Aquilo que está dentro do próprio sujeito se põe em funcionamento e é contrário aos esforços conscientes. Por exemplo, pessoas que investem muito em um trabalho, defendem idéias e no momento da execução e efetivação deste trabalho, cometem um ato, ou desistem, adoecem, o que acaba por invalidar tudo que até então construíram. Como em um movimento de construção / desconstrução essas pessoas vão experimentando todo tipo de sentimento destrutivo. Têm suas vidas travadas, mas são eles mesmos agentes disso que inviabiliza suas possibilidades de produzir, de sentirem-se felizes e realizados. Nestes casos, o que temos é a pessoa agindo contra si mesma, incessantemente.

Alguns impossibilitados em reconhecer sua participação em tais eventos preferem acreditar que seus insucessos são motivados por boicotes que os colegas fizeram, por estratégias sujas que alguém empregou. Outros tendem a se oferecer a estas situações de ataque, desqualificação. Difícil contatar com o fato de que são vítimas de si mesmos! Verificamos esse processo nas pessoas que repetidas vezes reprovam em exames que as habilitam profissionalmente; nas pessoas que inauguram relações nas quais acabam sempre traindo e ou sendo traídas, que maltratam, que são maltratadas; que adoecem em conseqüência de um êxito; que não conseguem finalizar projetos a que se propõem; que constantemente vivem situações de desespero... . O fenômeno de compulsão a repetição quando instalado na realidade psíquica, provoca limitações sérias e determinantes na vida das pessoas. Pensar que eventos como os citados, irão passar por si só, que se trata de uma fase, é engano.

Passado é passado? Para Língua Portuguesa sim, pois, passado é particípio, forma nominal do verbo que expressa ações plenamente concluídas. Para Psicanálise, o passado que insiste em se repetir, precisa ser apropriado pelo sujeito como fazendo parte dele, e assim, se fazer presente, depois pretérito, e só com muito trabalho psíquico o sujeito poderá dar um destino futuro.


Publicado em 26/11/2007

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