Passado é passado?
"Cara: vou repetir o ano de novo". "Vai rodar?"
"É". "Por que, cara?" "Não sei". "Então
estuda!" "Não dá mais, preciso de muito". - Este é um fragmento de
uma destas conversas que escutamos. Recorro a este fato como a uma cena ilustrativa, com a
intenção de aproximar-me do cotidiano e pensar um fenômeno psíquico chamado:
compulsão de repetição. A compulsão a repetir, se caracteriza por um tipo de conduta
que a pessoa realiza por uma imposição inconsciente, sem que haja uma intencionalidade
no inconsciente. Simplesmente é algo que insiste. Daí a sensação de estranheza frente
aos fatos, acompanhada por um sentimento de desamparo, impotência. Na repetição, é
justamente o estranho que há em nós, o inconsciente, que se apresenta, se faz sentir na
carne gerando dor, sofrimento e impedimentos diversos para o desfrute da vida. O que se
repete são vivências que ficaram incompreendidas foram excessivas, traumáticas.
Tomemos a conversa dos dois jovens como um diálogo interno, como uma conversa entre duas
partes dentro de uma mesma pessoa. Uma parte, inconsciente, que se apresenta insistente no
fato de repetir o ano. E outra parte, do lado do eu, que vive passivamente essa
insistência. Mas nesta conversa interna algo falha, e, a consciência, a força de
vontade, se rende, desiste da luta, joga a toalha. A repetição acontece como um auto
boicote. Aquilo que está dentro do próprio sujeito se põe em funcionamento e é
contrário aos esforços conscientes. Por exemplo, pessoas que investem muito em um
trabalho, defendem idéias e no momento da execução e efetivação deste trabalho,
cometem um ato, ou desistem, adoecem, o que acaba por invalidar tudo que até então
construíram. Como em um movimento de construção / desconstrução essas pessoas vão
experimentando todo tipo de sentimento destrutivo. Têm suas vidas travadas, mas são eles
mesmos agentes disso que inviabiliza suas possibilidades de produzir, de sentirem-se
felizes e realizados. Nestes casos, o que temos é a pessoa agindo contra si mesma,
incessantemente.
Alguns impossibilitados em reconhecer sua participação em tais eventos preferem
acreditar que seus insucessos são motivados por boicotes que os colegas fizeram, por
estratégias sujas que alguém empregou. Outros tendem a se oferecer a estas situações
de ataque, desqualificação. Difícil contatar com o fato de que são vítimas de si
mesmos! Verificamos esse processo nas pessoas que repetidas vezes reprovam em exames que
as habilitam profissionalmente; nas pessoas que inauguram relações nas quais acabam
sempre traindo e ou sendo traídas, que maltratam, que são maltratadas; que adoecem em
conseqüência de um êxito; que não conseguem finalizar projetos a que se propõem; que
constantemente vivem situações de desespero... . O fenômeno de compulsão a repetição
quando instalado na realidade psíquica, provoca limitações sérias e determinantes na
vida das pessoas. Pensar que eventos como os citados, irão passar por si só, que se
trata de uma fase, é engano.
Passado é passado? Para Língua Portuguesa sim, pois, passado é particípio, forma
nominal do verbo que expressa ações plenamente concluídas. Para Psicanálise, o passado
que insiste em se repetir, precisa ser apropriado pelo sujeito como fazendo parte dele, e
assim, se fazer presente, depois pretérito, e só com muito trabalho psíquico o sujeito
poderá dar um destino futuro.
Publicado em 26/11/2007
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