O adulto já foi criança
Neste mês, a data marcante é o dia das crianças, e por isso podemos fazer algumas
colocações e reflexões acerca da infância, dessa passagem tão importante na vida de
todos.
A linguagem da criança é diferente da linguagem do adulto, sendo que o último necessita
compreender as necessidades e a linguagem próprias da infância, e muito auxiliará se
for capaz de evocar e identificar sua própria experiência de ter sido criança um dia.
Isso se torna um tanto complexo, pois na medida em que o adulto avançou para outros
níveis em termos intelectuais e emocionais, sente-se distante do mundo infantil e por
vezes, lhe custa um pouco retornar e lembrar como era.
Além do mais, há muitos sentimentos, fantasias, vivências e fatos que vão sendo
"esquecidos", o que se faz necessário para que possamos passar de uma etapa a
outra. Freud falava da amnésia infantil que na maioria das pessoas encobre os primeiros
anos de vida. Preservamos algumas lembranças envolvendo sentimentos de amor, raiva,
ciúmes em um tempo em que nos expressávamos de forma direta, espontânea, sem muita
censura (comprovamos isso ao observarmos as crianças pequenas). Depois deixamos essa vida
mais impulsiva e egocêntrica para dar espaço ao pensamento racional e passamos a nos
expressar com maior censura e pudor.
Ao falarmos da infância, não podemos deixar de mencionar alguns aspectos importantes nas
relações entre pais e filhos. Um aspecto fundamental a considerar é o quanto o filho
depende do desejo dos pais de que viva e cresça. Do desejo que se reflete através do que
aspiram, sonham e idealizam que seu filho venha a ser ou se tornar.
O filho devido a sua condição de desamparo e dependência (inerente à infância), irá
captar o que os pais esperam e aspiram que venha a ser, desejando ser o desejo dos pais,
idealizando-os, pois o que lhe falta está nas mentes dos mesmos. E por isso se esforça e
espera reconhecimento e amor, sendo a presença viva dos pais uma referência central da
identidade.
Por essa razão, a criança, num primeiro momento, irá acreditar em todos os enunciados
parentais. Só posteriormente irá começar a questioná-los, percebendo que os adultos
não sabem tudo e que nem ela sabe tudo, e que terá uma parcela a descobrir por si mesma.
Cabe aos pais guiarem o filho, demonstrando segurança de que sabem, respondendo as
perguntas dele (de acordo com o alcance de sua compreensão), mas deixando também um
espaço para dúvidas, para uma falta. Pois, desta maneira, a criança buscará respostas
através de invenções, fantasias e muitas brincadeiras, dando vazão à criatividade.
Precisamos frisar também que o vínculo com o filho irá reativar nos pais, as próprias
vivências infantis, a relação com os próprios pais já internalizados, acontecimentos
positivos e negativos e de como elaboraram a infância.
O trabalho psíquico que dá aos pais todo esse processo de criar filhos, também porque
há uma revivescência de suas próprias histórias infantis, de traumas, dificuldades,
que pode conduzir, em algum momento, a busca de ajuda de um profissional especializado no
conhecimento e entendimento do psiquismo infantil e adulto.
Publicado em 20/10/2007
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